Dear Edward
Seja forte caro leitor, esse texto não é só sobre arte
Todo mundo isolado. Exilados nos seus pequenos (ou grandes) dramas individuais. Desconectados. Sozinhos.
Imediatamente você se conecta com aquelas figuras e quer arrancar do quadro alguma pista de quem são e o que estão pensando.
É a rejeição que te faz querer ainda mais alguém. Edward Hopper não se importa com você, e as figuras nas telas do Hopper não se importam com o Hopper. Essa indiferença é hipnotizante, fisga nossos olhos e voilá: estamos isolados e suspensos do lado de fora observando sem conexão.
É você ali na calçada de Nighthawks olhando pra dentro da lanchonete.
Em todas as suas obras nos paralisa a sensação de que aquilo que vemos é, de algum modo, o mesmo que vivemos. Mas não participamos.
Hopper pintou o isolamento muito antes de o isolamento se tornar uma epidemia silenciosa. Em uma América que descobria a modernidade, ele retratou o avesso dela: o vazio atemporal. O vazio entre as pessoas, entre as janelas acesas no meio da noite, entre o gesto e o afeto.
A luz, protagonista, é fria, geométrica, quase clínica. Ela recorta o silêncio. Ela expõe o que existe, mas também o que falta. É a luz que nesse instante ilumina seu rosto enquanto você lê estático. Uma luz sem calor, mas cheia de presença
Mas não é só a luz: as cores também falam.
O amarelo não aquece, ele denuncia. O vermelho não vibra: pulsa contido, quase em alerta. O azul, que poderia ser calma, é distância. Cada cor parece ter perdido a função de descrever um cenário para assumir a de revelar o estado de quem habita o mundo. São cores em suspensão, tão silenciosas quanto as figuras que povoam as telas.
É como se o quadro inteiro respirasse em tons de espera.
Em Taxi Driver Travis Bickle vive uma Nova York noturna, suja e deserta, que parece saída diretamente de um quadro de Hopper.
Ele está sempre sozinho dentro dos enquadramentos: o táxi é sua cela de vidro, a cidade é uma paisagem sem testemunhas. Mesmo cercado por pessoas, Travis está isolado em seu próprio delírio: um homem que observa o mundo sem realmente fazer parte dele.
A câmera do Scorsese o trata como Hopper tratava suas figuras: sempre à distância, sempre observando pela janela.
A solidão dele é física e moral.
E nós, espectadores, sentimos esse confinamento. A mesma sensação de “estar dentro e fora ao mesmo tempo” que Hopper eternizou em suas janelas iluminadas.
Em Lost in Translation, a solidão não está na distância, mas na falta de tradução entre duas presenças.
Charlotte e Bob estão cercados por luzes, sons e telas e, habitam o mesmo vazio de Hopper: um espaço luminoso e frio, cheio de ausência.
É a solidão da alma em fuso errado: “meio presente”, “meio ausente”, em um tempo que não avança nem termina.
Em As Horas, a escritora Virginia Woolf vive a tensão entre o gênio e o colapso, entre o desejo de desaparecer e a obrigação de permanecer viva. Obrigação de escrever, de ser esposa, de ser alguém.
É o retrato de quem sente demais para continuar, mas precisa continuar mesmo assim. Ela não foge do mundo, o mundo é que se torna pesado demais para ser habitado.
Woolf encarna o sofrimento que Hopper pressentia em suas figuras imóveis: a consciência plena da própria solidão.
E é nessa linha tênue entre a lucidez e o esgotamento que muitos de nós existimos hoje: cientes da exaustão, mas sem o direito ao recolhimento.
Como se viver fosse, por si só, uma forma de resistência silenciosa.
Até que não é mais posssível resistir.
Antes de se lançar ao rio Ouse, Woolf escreveu a Leonard uma carta, um bilhete que é também rendição e declaração de amor.
Dear Leonard,
I feel certain that I am going mad again. I feel we can’t go through another of those terrible times. And I shan’t recover this time. I begin to hear voices, and I can’t concentrate. So I am doing what seems the best thing to do.You have given me the greatest possible happiness. You have been in every way all that anyone could be. I don’t think two people could have been happier till this terrible disease came. I can’t fight any longer.
I know that I am spoiling your life, that without me you could work. And you will, I know. You see I can’t even write this properly. I can’t read. What I want to say is that I owe all the happiness of my life to you. You have been entirely patient with me and incredibly good. I want to say that— everybody knows it. If anybody could have saved me it would have been you.
Everything has gone from me but the certainty of your goodness. I can’t go on spoiling your life any longer. I don’t think two people could have been happier than we have been.
Always the years between us. Always the years. Always the love. Always the hours.
É talvez o texto mais dolorosamente lúcido já escrito: a despedida de alguém que compreendeu o próprio limite. O eco desse bilhete atravessa todo o nosso tempo: a fadiga, o cansaço, o desejo de parar e o dever de continuar.
É a solidão da impossibilidade de seguir.
Mas há uma camada mais profunda nessa solidão contemporânea, que Hopper talvez pressentisse.
Vivemos um tipo de exílio sem fuga. Sempre acessíveis mas nunca inteiros.
O corpo está cansado, mas o olhar atento.
É o exílio do sujeito dentro de sua própria rotina.
Mais que solidão, as figuras em suspenso parecem desejar presença, toque, verdade. O mesmo desejo que pulsa, discretamente, enquanto observamos e somos observados.


