Viva, em Moscou
Foi por pouco mas sobrevivi.
Hum mil e quinhentos anos atrás, quando eu era influente colunista de um portal relevante, vira e mexe me dava preguiça e eu metia um texto de playlist. “10 músicas para ouvir chupando manga”, ou qquer bobagem do tipo. Pessoas adoram listas e opiniões desmedidas e incompetentes sobre qquer forma de arte sempre engaja os ignorantes e os pedantes. A sessão de comentários vira briga de rua, e os editores adoram.
Enfim, me comprometi com 1 textão por semana e o dessa vou meter um dica musical comentada de forma leviana e visceral.
Longe de mim ofender vcs 2 ou 3 que me acompanham aqui. Mas a semana foi um inferno no desmame do Rivotril, do Venvanse, do chorume e autoflagelação.
Sim, dá pra se viciar em chorume: no seu próprio e no dos outros.
Como eu sobrevivi? Maracugina, Marlboros ocasionais escondidos e muita música. Eu sempre corro pro Jazz, minhas bruxonas Nina, Ella, Billie, Lena, Sarah. E meus atormentados do sopro: Chet, Miles, etc etc etc.
Mas essa semana, a real é que quem me salvou foi o lindo ao vivo de 1979 do Elton John em Moscou. Descobri depois que a turnê russa entrou pra história: a primeira de rock ocidental por lá. Cantado em inglês. Ele e o piano.
Era jovem, muito louco? Não sei, mas calou meu cérebro e me fez escutar outros que não os meus próprios pensamentos em espiral caótica. E as letras do Bernie Taupin, pra mim, são incomparáveis. Tem quem insista no Morrissey mas dificil não botar o Bernie no pareo. Baita texto.
Achei uma espécie de documentário no YouTube (tá lá no final) que eu acho que é o mesmo show do álbum que tá no spotify e apple music, mas que na edição não seguiram o setlist. E o som não bate igual. Recomendo ouvir no seu stream favorito.
É lindo: cheio de notas encaixadas na hora e improviso vocal de quem sabe que está fazendo arte diante de um público embasbacado.
Menino gênio caprichando pros russos.
Chorei, muitas e muitas vezes com Rocket Man (Spotify | Apple Music)
A sensação de saudade da vida familiar e ao mesmo tempo a certeza de inadequação na Terra. Esse exílio espacial da viagem longa rumo ao desconhecido, e o sentimento inexplicável de se perceber sozinho no vazio, queimando o próprio pavio até não sobrar nada. Até parar de se consumir e encontrar o frio de Marte, onde não dá pra ter ter uma família. E ainda que fosse possível, não tem mais ninguém ali.
And all the science, I don´t understand. It´s just my job 5 days a week.
Um astronauta que não entende de ciência, não se sente bem no espaço sozinho, e é um impostor na Terra.
E quando Elton começa a improvisar cantando que vai levar muito, muito tempo no exílio eu chorei como quem sabe está queimando o próprio pavio desde sempre, e se pergunta se vai ter energia para voltar. E se tiver, voltar proquê?
Na sequência vem Don´t let the sun go down on me (Spotify | Apple Music)
Uma música que eu sempre achei meio cafona. Mas aqui só voz e piano, a voz clara de quase 50 anos atrás, bateu como um bloco de paralelepípedo. Essa dor de tentar, de verdade, e fracassar. De ser mal interpretado, de não ver futuro, e ainda assim não conseguir encontrar em si mesmo clareza e luz suficiente. Dói, acredite.
E minha atual preferida Goodbye Yellow Brick Road (Spotify | Apple Music)
Às vezes a gente tem que sair da estrada de tijolos amarelos, e enfrentar a realidade de ser um ser pantanoso. Não adianta insistir, se não é seu lugar. Melhor ficar no seu arado com seus sapos e criaturas feiosas.
So goodbye yellow brick road,
Where the dogs of society howl.
You can’t plant me in your penthouse,
I’m going back to my plough.
Back to the howling old owl in the woods,
Hunting the horny back toad.
Oh I’ve finally decided my future lies
Beyond the yellow brick road
Será que todo mundo é substituível? Se a gente parar de dar o pouco que tem e mendigar oq acha que precisa, somos úteis?
What do you think you’ll do then?
I bet that’ll shoot down your plane.
It’ll take you a couple of vodka and tonics
To set you on your feet again
Maybe you’ll get a replacement,
There’s plenty like me to be found.
Mongrels, who ain’t got a penny,
Sniffing for tid-bits like you on the ground
Tenho pensado muito nisso: se eu parar de fazer a parte dolorosa e difícil das relações, quantas delas se mantém de pé? Chuto que quase nenhuma. Estou pronta pra isso? Você está? Não sei se não prefiro a exaustão e a fantasia.
Ouve tudo. De fone, no escuro, na cama. Presta atenção, OUVE de verdade. Me dá a mão e vamos chorar juntos.
Do svidaniya. Seguimos.
Aí o Youtube fora de ordem e com o som pior, for the cheap seats in the back.


Saudade do seu jeito bruto de ser doce… ❤️
Rocket Man e Yellow Brick Road sempre foram as minhas favoritas. Mas YBR entrou na minha vida de forma torta. Eu devia ter coisa de 12 anos, e e essa foi a primeira música que eu dancei de cara colada. Eu, toda cheirosinha, usando um conjuntinho de jeans que arrasaria em 2025, ouvi a voz do Elton, assustadíssima por não entender o motivo da minha bochecha estar encostada na superfície suada de um menino desengonçado. Talvez tenha sido a minha primeira sensação de “muito barulho por nada” (sim, só a primeira), porque a romantização das primeiras vezes deveria ser proibida por lei no Código Civil das Galáxias!
Me lembre de escrever sobre isso.